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"Majadito" é prato apreciado na fronteira e ainda inspirou receita de arroz boliviano em Corumbá

Leonardo Cabral em 20 de Julho de 2022

Quem vive em região de fronteira tem o privilégio de compartilhar outras culturas, conhecimentos, tradições. Não diferente de outras áreas de fronteira, está Corumbá, do lado brasileiro, e as cidades de Puerto Suárez e Puerto Quijarro, do lado boliviano. Juntas, essas cidades dão importante contribuição para fortalecer a identidade fronteiriça dos seus povos.

E nessa integração, a gastronomia tem importante papel e ganha ainda mais sabor ao misturar influências dos dois países. Com um sabor autêntico, diferenciado e carregado de tradições, muitos pratos bolivianos caíram no gosto dos corumbaenses. Quem lidera essa preferência da culinária do país andino é a tradicional “salteña” (em espanhol) ou saltenha, em português, salgado recheado com frango, batata, ovo, azeitona e que ganha cor através do urucum utilizado na massa.

Outro prato típico da culinária boliviana e que tem conquistado o paladar do lado brasileiro, é o tradicional “majadito” ou “majao”, como também é conhecido. Esse prato leva arroz papa, com charque ou carne seca desfiada e socada no pilão e tem como acompanhamentos: banana da terra frita, salada de alface com tomate, batata doce ou mandioca (preferência) e ovo frito. É muito saboroso e remete a um risoto ou paella

Foto cedida ao Diário Corumbaense

Arturo junto com a irmã, servindo o majadito que vendem em promoções em Corumbá

Pode parecer fácil, mas não é qualquer pessoa que acerta a receita de um bom majadito. Em Corumbá, alguns bolivianos e descendentes, aproveitam a habilidade herdada e, por meio dessas receitas, lucram e ajudam a difundir ainda mais a integração entre as duas nações.

Um deles é Arturo Ardaya, um dos responsáveis por manter viva a cultura boliviana em Corumbá. Junto com as irmãs, além da salteña, ele oferece o majadito, entre outras comidas. Para ele, é uma satisfação difundir a cultura da Bolívia dentro de Corumbá e para outras cidades do Mato Grosso do Sul.

“Junto com as minhas irmãs, faço questão de estar sempre mostrando e divulgando a cultura boliviana. De alguns anos para cá, percebi que não fazia nada pela minha descendência e ainda morando aqui na fronteira. Sou filho de bolivianos, meu pai é de Santa Cruz de La Sierra, e minha mãe de San Ignácio de Velasco, então por conta disso, senti que não fazia nada. Faço questão de mostrar a cultura boliviana que influencia bastante a nossa cidade, através da comida, festas religiosas, enfim, para poder tirar qualquer preconceito que não deve existir e que não é saudável”, explicou Arturo. “Tudo é influência, como nosso tradicional pastel, que em outras cidades do Brasil é vendido sem batata no recheio, aqui, em Corumbá, ele leva batata, fruto dessa tradição na Bolívia também”, completou Arturo ao Diário Corumbaense.

Ele lembra que o “Majao” é sim, o segundo prato da Bolívia mais conhecido em Corumbá e que existem várias outras maneiras de fazer a comida que é tradicional dos cambas, como são conhecidos os que vivem na região de Santa Cruz de La Sierra. Arturo ainda arrisca-se a dizer que o prato originou durante a presença da corte espanhola que colonizou aquela região.  

“O majadito, na verdade, existe, de acordo com a história, quando a corte espanhola estava por aqui e queria fazer uma paella (prato típico da Espanha) e, como não havia os frutos do mar, ingredientes indispensáveis, usou as coisas que tinham aqui, como a carne de charque, deixando a comida bem molhada. O majadito foi ganhando forma e, hoje, para nós, é bem parecido com o risoto ou o arroz carreteiro, que por sinal é seco. O ‘majao’ tem a carne socada no pilão, depois misturada com o arroz e os temperos, como urucum, cebola, pimentão entre outros ingredientes para dar o sabor do prato”, explicou.

Já Arlene Cabral Messias, que também é filha de bolivianos e é nascida na cidade de El Carmen Rivero Torrez, distante cerca de 300 km de Corumbá, usa todo o aprendizado herdado da mãe e tias, para ganhar renda extra e ajudar a divulgar no lado brasileiro a cultura boliviana que tem orgulho de pertencer.

Foto cedida ao Diário Corumbaense

Arlene aproveita a herança dos pais na culinária e também faz comidas bolivianas

“A minha família é boliviana, mas, desde que meus pais vieram para Corumbá há mais de 40 anos, todos nós enraizamos aqui. Me casei aqui, meus filhos nasceram aqui, meus sobrinhos nasceram aqui e minhas irmãs foram criadas aqui, então, pertencemos às duas nações e me deixa muito triste quando há preconceito com bolivianos. Porém, através do que faço, sempre procuro ressaltar o país que fica a poucos metros da nossa Corumbá, que, por sinal, recebe muita influência de lá e vice-versa também”, falou.

Sempre quando pode, ela realiza promoções de comidas típicas da Bolívia, uma forma de ajudar nas despesas da casa. Entre os pratos estão, além do majadito, picante de pollo, empanadas de queijo e frango e, claro, a tradicional salteña. Pelo menos uma vez na semana, ela se dedica a fazer essas delícias bolivianas que caíram no gosto dos corumbaenses e os clientes já são fixos. O “Majao” é vendido entre R$ 20 e R$ 25,00 o prato.

“O majadito, com toda certeza, é um dos mais pedidos junto com a saltenha. Quando faço o majadito, não sobra nada e olha que a panela não é pequena. Vem família, amigos e até mesmo pessoas que não conheço e acabam comprando, uns pela curiosidade de saber o que é o prato, outras por gostarem e saberem que faço. É sempre um prazer fazer, vender e até mesmo presentear alguém, quando posso, com essas delícias”, disse Arlene que, como boa cozinheira, ressaltou que na receita do majadito, além dos ingredientes, vai muito amor. “Tudo que nos propusermos a fazer, tem que ser com amor, carinho. Assim, tudo flui”, completou.

O fato é que o majadito tem de ser servido e “devorado” na hora, ainda quente. Uma vez que seca, ele continua com o mesmo sabor, mas não tem a mesma característica de quando acaba de sair do fogo.

Majadito não é arroz boliviano

Pela presença da culinária boliviana em Corumbá, muitos corumbaenses acabam acreditando que o prato conhecido como “arroz boliviano”, que leva carne moída, ovo cozido, banana da terra frita, milho, ervilha, batata frita ou palha, é tradicional da Bolívia.

Arturo e Arlene compartilham da mesma ideia. Para eles, essa confusão acontece devido à banana e batata fritas na comida. Mas os dois lembram que, na Bolívia, a carne moída é bem difícil de ser consumida e que o arroz boliviano pode sim, ser considerado um prato genuinamente corumbaense, apesar de levar o nome do país vizinho.

“É um prato praticamente criado aqui em Corumbá, pelos próprios corumbaenses. Ele não é originário da Bolívia, mas também caiu no gosto e na tradição da cidade pantaneira”, disse Arlene.

Majadito ou Majao

Foto cedida ao Diário Corumbaense

Pronto, majadito tem que ser saboreado logo depois que sai do fogo

Na Bolívia, "Majao" significa "bater" ou "misturar", algo que é feito com carne antes de fazer o majau com um tacu ou pilão de madeira. O majao é um prato tradicional do Oriente boliviano.

Existem variações que substituem o charque por outras carnes, como frango, pato, entre outras. Existem duas variedades de majadito: o majadito torrado e o majadito batido.

A versão mais famosa é a de Santa Cruz, conhecida como Majao Cruceño. 

Veja como preparar:

Ingredientes para 6 porções

1 quilo de peito de carne (charque)

2 xícaras de arroz

2 cebolas grandes

2 tomates e 2 dentes de alho

3 colheres de sopa de coloral

4 dentes de alho

Pimenta do reino e cominho

Sal a gosto

bananas da terra para fritar (preferência bem maduras)

Ovos fritos (vai em cada prato servido)

Mandioca ou batata doce (preferência também)

Preparo

Deixe a carne seca cozinhar na panela (pode ser na panela de pressão). Logo depois, escorra-a, coloque em um pilão, soque-a, depois a desfie e frite-a em 1 colher (café) de azeite por 5 minutos, ou até dourar.

Reserve a água o qual a carne foi cozinhada. Em outra panela coloque o resto dos ingredientes, fritar com o arroz, depois de frito misturar a carne desfiada com a água da carne reservada.

Observação: colocar em seguida água fervendo e mexer sem parar até ficar na consistência de um creme. Por último acrescentar a banana frita, ovo frito, salada e a mandioca ou batata doce. Depois é só degustar.

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