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Onça morta atropelada tem material genético coletado para pesquisas

Cassia Modena - Campo Grande News em 20 de Abril de 2026

Divulgação/Reprocon

Pesquisadores retirando material genético da onça vítima de atropelamento

Parte da orelha e os testículos da onça-pintada que morreu após ser atropelada no sábado (19), na BR-262, foram coletados para servir a pesquisas na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). Os materiais poderão ser perpetuados num clone e contribuir futuramente para a conservação da espécie, atualmente classificada como vulnerável.

A coleta foi feita pelo Reprocon (Reproduction for Conservation), nome de um grupo de pesquisadores ligados à universidade que se dedicam a estudos inovadores focados em animais.

Segundo a professora doutora em reprodução animal e coordenadora do Reprocon, Thyara de Deco Souza e Araujo, era um animal macho, jovem, de aproximadamente três anos, fase em que as onças-pintadas já deixaram a mãe e migram para demarcar territórios para a procriação. O responsável pela coleta dos materiais em campo, chamados de tecidos vivos, foi o médico-veterinário pós-doutor em Reprodução Animal, Gediendson Ribeiro de Araujo.

Já são mais de 70 amostras de felinos armazenadas no biobanco do laboratório onde o grupo realiza os estudos na universidade. Desses, oito são de onças-pintadas atropeladas em rodovias.

O grupo também recolhe células não vivas de outros animais (penas e sangue, por exemplo) e retira gametas, espermatozoides, óvulos e até embriões para uso em técnicas de reprodução assistida, análise epidemiológica ou estudos sobre as espécies em si.

Como funciona

Levará um tempo até que os tecidos vivos da onça fiquem prontos para serem armazenados. As amostras não podem simplesmente ser depositadas, é preciso uma preparação.

Divulgação/Reprocon

Pedaço de tecido coletado de onça-pintada morta

“Retiramos pedacinhos bem pequenininhos, colocamos para cultivar numa incubadora e lá as células se multiplicam. São elas que vamos armazenar em nitrogênio líquido a uma temperatura de -196ºC”, explica Thyara.

Os materiais podem ficar armazenados por décadas. Enquanto isso, os pesquisadores desenvolvem técnicas de clonagem. A de onças ainda não é realidade no Brasil, mas existe em potencial, garante a pesquisadora.

Ela cita como exemplo de clonagem voltada à conservação a do furão-da-pata-preta, nos Estados Unidos, que teve materiais armazenados na década de 1980. A espécie já era dada como extinta da natureza. “Clonaram, os indivíduos se reproduziram e seus filhotes foram soltos. Isso foi feito com tecnologias muito específicas e ocorreu décadas depois”, afirma.

A coordenadora do Reprocon acrescenta que a UFMS tem equipamentos e tecnologias disponíveis para esse objetivo. Eles poderão ser usados não só caso a onça-pintada venha a desaparecer, mas também para assegurar a variabilidade dos genes da espécie, evitando problemas comuns no cruzamento de animais com algum grau de parentesco.

“Estamos estocando material que pode ser recuperado no futuro, para ter população grande o suficiente para ter variabilidade genética e migrar”, completa.

Thyara finaliza simplificando a importância dos estudos do grupo. “É igual a um banco de dinheiro. A gente guarda enquanto tem, para usar quando precisar. Por essa razão, temos que armazenar o material genético desses animais enquanto ainda existem indivíduos”, compara..

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