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Há 50 anos, Alcoólicos Anônimos muda vidas em Corumbá: “renascemos"

Leonardo Cabral em 16 de Fevereiro de 2024

Leonardo Cabral/Diário Corumbaense

Companheiros de mãos dadas representam a vitória, a cada dia, nesses 50 anos de AA em Corumbá

É na adolescência que boa parte das pessoas experimenta o chamado “primeiro gole”, ou seja, mantém contato com o álcool. Porém, o que muitos não sabem é que a partir dessa fase da vida é que alguns iniciam no alcoolismo, não conseguem mais sair e a doença acaba interferindo na relação profissional, pessoal e familiar, destruindo lares.

Desde 1967, a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera o alcoolismo uma doença e recomenda que as autoridades encarem o assunto como questão de saúde pública. Existem inúmeros programas e projetos ofertados, entre eles, o trabalho feito pelo Grupo dos Alcoólicos Anônimos (AA), que neste sábado, 17 de fevereiro, completa 50 anos em Corumbá.

Responsável por trazer o AA para a cidade, Jarci, como é chamado, tem 83 anos. O primeiro contato com o álcool foi aos 14 anos e aos 33, parou de beber. Em entrevista ao Diário Corumbaense, Jarci contou que entendeu que era doente, por causa do álcool, quando foi internado no hospital da Marinha e tentou tirar a própria vida.

“Era festa de Ano Novo, todos os pacientes foram liberados, eu pedi para não ir e fiquei. Quando em determinado momento, do nada, escutei uma voz que sussurrou em meu ouvido dizendo: ‘você tem que morrer’. Entendi bem o recado e, então, tentei tirar minha própria vida. Mas fui socorrido a tempo e, foi então, que entendi que o álcool estava me fazendo mal, mas não só a mim, a toda a minha família, minha mãe, a principal vítima, pois sofria por minha causa", disse.

“Passei por cada situação, eu era da Marinha quando aconteceu esse episódio comigo. Depois de me recuperar do susto, conheci uma freira, que me apresentou o AA, mas isso em Campo Grande. Comecei a frequentar as reuniões e expandi para Corumbá, onde começamos com o grupo e os companheiros foram chegando. Já são 50 anos de muito trabalho, eu só tenho a agradecer por tudo que vivemos”, declarou.

O grupo se expandiu e as pessoas passaram a conhecer o trabalho feito pelo AA no município, com a soma de companheiros, como os membros chamam quem participa.

“São tantas coisas vivenciadas, mas o que mais marca são as mães que vinham e pediam para que os filhos fossem curados, aí, neste momento, é que vi a real situação que a minha mãe e família passaram por mim. Foi doloroso, sofrido, mas hoje, só agradeço por tudo e tenho certeza que o trabalho não pode parar”, pediu Jarci. 

Meu primeiro gole

Alguns companheiros do AA da Cidade Dom Bosco, relataram a experiência que tiveram ao longo dos anos por causa do álcool. Um misto de emoção, agradecimento.

Também aos 14 anos, foi o primeiro “gole” de Oriones. Hoje, com 63 anos, e sem beber há quase 30 anos, ele se diz feliz, principalmente por ter convivido com a mãe pelo tempo de 10 anos, sem ter nenhum contato com o álcool. “Foi um presente de aniversário que me dei, meu melhor em toda a minha vida”, mencionou. Foi no dia em que completou 33 anos, em 30 de agosto, que ele decidiu parar de beber.

“Comecei aos 14 anos, em uma reuniãozinha com amigos, após futebol, quando tomei meu primeiro porre. Desde então, não parei. Se eu tivesse a noção do que o álcool faria na minha vida, teria parado naquele dia. Mas o álcool é uma doença progressiva, foram anos de sofrimento até que um dia a minha mãe chegou e disse: ‘se você quiser beber e morrer, beba até morrer’. Essas palavras tocaram meu coração, parei, pensei e decidi que não queria morrer. Foi quando conheci o AA. Foi minha renovação, meu novo capítulo de vida começou a ser escrito e desde então, já são quase 30 anos sem beber”, contou Oriones, que ficou emocionado ao relembrar o que viveu. “Se hoje estou aqui contando tudo, é por causa do Jarci. Agradeço a ele e à Deus por tudo que proporcionaram, foram eles que me deram a segunda chance de viver”, completou. 

Um pouco diferente foi o que Vera vivenciou. Além do álcool, ela também tinha como enfrentamento as drogas, um problema “cruzado”.

“Consegui controlar a droga e álcool dentro de uma sala de AA, quem mais valoriza o AA é a minha família, pois desde que resolvi fazer parte, dei tranquilidade e paz para eles. Minhas filhas eram crianças, eu bêbada e drogada, chegava em casa e era a primeira que apanhava e a última que chorava, não sabia o que estava fazendo, era descontrolador. Hoje, só gratidão, temos um grupo bem ativo e tento fazer sempre o melhor, não para me engrandecer, mas para me manter sóbria. Tenho total consciência hoje, que aqui, somos multiplicadores de seu Jarci, pessoa a quem tenho só gratidão. O que ele fez pela nossa irmandade, não há dinheiro algum que pague, ele não mediu esforços para que trouxesse o AA aqui. Já são 29 anos sem contato com a álcool e as drogas”, agradeceu Vera.

Ela fez questão de afirmar que renasceu. "Nesses 29 anos, consegui criar minhas duas filhas, tenho três netos. Mas, durante toda essa trajetória o mais gratificante foi poder estar sóbria e cuidar a minha mãe por 20 anos, até o falecimento dela. Se eu fosse bêbada e drogada não teria a felicidade de estar junto dela. Isso só tenho a agradecer ao AA e ao Jarci”, completou Vera olhando fixamente para Jarci e com os olhos repletos de lágrimas. “Choro de felicidade, porque venci”, disse.

Primeiro gole pode vir tarde também

Se a maioria das pessoas começa a beber ainda na adolescência, há exceções. É o caso de Cezar, que deu seu primeiro gole de cerveja, aos 25 anos. Durante toda sua infância e adolescência, nunca havia experimentado o álcool: “odiava quem bebia perto de mim”.

No entanto, seu primeiro contato foi quando seu filho nasceu, em 1980. O primeiro gole foi para comemorar a chegada dele.  “Minha esposa na maternidade e eu fui beber para celebrar o nascimento do meu filho. Meu patrão fez uma festa, organizou tudo. Realmente era uma alegria aquele momento. Porém, foi aí que comecei. Minha esposa saiu do hospital e eu segui bebendo. Cheguei carregado em casa, nem meu filho tinha conhecido”, contou a este Diário.

Leonardo Cabral/Diário Corumbaense

Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de pessoas que compartilham suas experiências

Depois disso, conversei com a minha esposa e prometi não beber mais. Como foi o primeiro porre, ela aceitou e entendeu o motivo. No entanto, dias passaram e eu segui bebendo, mas de maneira 'moderada', porque sempre fui do futebol e nessa época, então, comecei a sair com os amigos e tomar bebida.

“Foi em 1987, que tomei minha primeira cachaça. Aí sim, me apaixonei pela branquinha quente e deixei a loira gelada. Comecei a perder os sentidos, perdi o bom emprego que tinha, comecei a perder minha família, que sofria com a minha situação. Minha esposa e minha mãe foram as únicas que não me abandonaram, andavam atrás de mim pelas ruas. Eu gastava todo meu dinheiro na farra. Nessa decadência, minha esposa não sabia o que fazer para me ajudar. Eu chegava a tremer quando não bebia, só tomando era  meu único alívio”, destacou. 

Um irmãozinho anjo

Cezar revela que conheceu o Alcoólicos Anônimos, mas meses depois abandonou. Caiu na tentação e tudo que ele havia superado, passou a viver de novo.

“Me recordo sempre, saí numa sexta e cheguei segunda pela manhã. Só com a roupa do corpo em casa. Me deu tristeza grande. Pensei em tirar minha vida, só que faltava a coragem e fui beber para conseguir fazer o que estava planejando. Fui ao boteco para executar o meu plano, mas algo havia sido reservado naquele momento. Um irmãozinho do AA, apareceu”, recorda-se.

Com detalhes, ele relembrou que um companheiro do AA, foi até ele no boteco, mas para evitar contato, sua primeira ação foi se esconder no banheiro. Por sorte, o companheiro não desistiu e ficou aguardando-o.

“O próprio dono do bar me chamou e disse que havia um amigo me esperando. Sem saber o que fazer, saí do banheiro, quando então, esse companheiro, que jamais desistiu de mim, me deu um abraço forte, dizendo: ‘vim te buscar irmãozinho, eu te amo’. Nesse momento, tudo começou a fazer sentido. Eu parei, pensei, refleti: ‘Como um homem estranho pode gostar de mim e eu mesmo não gostar?’. Foi quando comecei a batalha e hoje, nos 50 anos do AA, celebro 28 anos de renascimento", vibrou Cezar ao contar o que viveu.

Em Corumbá e Ladário, existem ao menos quatro grupos do AA. No Brasil, o AA começou a funcionar em setembro de 1947, no Rio de Janeiro. Hoje, existem 5.081 grupos espalhados pelo País, oferecendo 11.642 reuniões por semana.

O Alcoólicos Anônimos é uma entidade criada nos Estados Unidos, na década de 1930, de porta sempre aberta para quem deseja largar o álcool. Já são quase 77 anos no Brasil, tendo como uma das principais regras o anonimato.

“Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de pessoas que compartilham suas experiências, força e esperança, único requisito para ser membro é a vontade primordial de parar de beber. É a única irmandade no mundo que é proibido proibir. Não damos conselhos, mas sim, sugestões de vida. Não paga nada para participar”, disse Vera. A celebração dos 50 anos será neste sábado, às 18h, na Igreja do bairro Dom Bosco. 

Grupos na região

"Grupo de AA Cidade Dom Bosco"

Rua Dom Aquino Correa, 2758- Dom Bosco, Corumbá - MS, Cep: 79333-070

Reuniões: segunda, quarta e sexta 

Das 19h30 às 21h30

"Grupo de AA Sagrado"

Rua Dom Aquino Correa, 524- Centro, Corumbá - MS, Cep: 79302- 040

Reuniões: terça e quinta 

Das 19h30 às 21h30

"Grupo de AA Ladário"

Rua Comandante de Souza Lobo, 333 - Centro, Ladário - MS, Cep: 79370-000

Reuniões: segunda, quarta e sábado. 

Das 19h30 às 21h30

"Grupo de AA São Gabriel"

Assentamento São Gabriel, próximo a subestação de gás 

Entre Maria Coelho e Morrinho

Reunião: domingo

Das 08h30 às 10h30

**Na reportagem, apenas o primeiro nome dos entrevistados foi citado, conforme autorização.

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Comentários:

Celso De Souza da Silva: Estou no grupo do AA ESTOU MUITO FELIZ, CIDADE DE JUIZ DE FORA B

Jovelina Rodrigues de Sousa : Quero encaminhar meu caloroso abraço a esse grupo e a todos os seus membros em especial ao fundador que a 50 anos está ajudando salvar vidas. Sou Al-Anon da cidade do Gama D.F. Meu grupo é o Florescer. Graças a irmandade de A.A estou a mais de 20 anos estendendo a mão para amigos e familiares de alcoólicos que desejam experimentar a serenidade....

Charles barbosz leite: O 1° Distrito de Alagoas juntos com seus grupos vai lançar um informativo sobre alcoolismo e saúde os danos q o álcool causa como um todo 829 87526939

Alessandra de Farias Cardoso : Deixo aqui meu reconhecimento e parabéns a esses anjos de Deus, que sempre estão ajudando o próximo, meu pai Jarci,nosso guerreiro,conhecido como Mestre Ziza,incansavelmente lutando por essa causa,mesmo com problemas de saúde aos 83 anos, continua com fé em Deus!Se vc tem familiares,conhecidos enfrentando esse problema é uma doença e vc pode ajudar! Procure o AA! Ajude enquanto há tempo! Parabéns guerreiros! Que através dessa reportagem a sociedade possa reconhecer o trabalho desses anjos de Deus!!!

Reginaldo Marcos Gissoni: Alcoolimos Anônimos é isso: Lugar de gente feliz!

Luiz Fernando Bonin Freitas: Hoje , vivo e deixo viver , respeito e sou respeitado, com FÉ E GRATIDÃO SEMPRE POR AA , DEUS NA SUA INFINITA BONDADE VEM MOSTRANDO O CAMINHO DE SAÚDE, PAZ E SALVANDO VIDAS E RESTAURANDO FAMÍLIAS, O LUGAR EXISTE, PESSOAS A ESTENDER AS MÃOS PARA UMA NOVA VIDA SEM O ÁLCOOL E COM DEUS .EU SOU FERNANDO F. MEU GRUPO BASE É O NOVA FRIBURGO -RJ , 2° GRUPO DO BRASIL EM ATIVIDADE, EM 8/8/2024 COMPLETAREMOS 72 ANOS DE AMOR AO PRÓXIMO, SÓ POR HOJE .

Eliverton Delgado: Admiração total por esses anjos. Reconheço que são instrumentos de Deus na recuperação do próximo. São conhecedores porque experimentaram a queda, se levantaram e agora estendem a mão para levantar outros.

David de Oliveira Rocha : Alcoolismo é uma doença física, mental,espiritual,incurável,progressiva e fatal mais antes de me matar me humilha eu tive que procurar ajuda era demais pra mim Uma dose é pouca mil não é suficiente

Paulo César: Parabéns aos companheiros e um agradecimento especial a este veículo de informação. Porque sem a ajuda da imprensa Alcoólicos Anônimos não seria o que é. Abraço e mais 24 horas.