Campo Grande News em 19 de Agosto de 2026
Arquivo pessoal

Marcelo ao lado do caminhoneiro socorrido após o acidente na BR-163
Daniel voltava de viagem com a esposa e a filha de 5 anos quando ouviu uma explosão na rodovia. Logo depois, quatro veículos que seguiam à frente começaram a recuar de marcha à ré. Com cerca de 14 anos de experiência na área de trânsito, o policial conta que nunca havia presenciado um acidente daquela proporção.
Ele parou o veículo no acostamento, ligou o pisca-alerta e seguiu em direção ao acidente. A esposa tentou impedi-lo diante do tamanho das chamas. “Ela falou: ‘Não, não vai, não’. Eu falei: ‘Não, eu tenho que ir’”, contou. Marcelo Martinez, sargento da reserva do Exército, também passava pelo local, parou o veículo nas proximidades e se juntou a Daniel no socorro às vítimas.
Ao se aproximar, Daniel encontrou o caminhoneiro Márcio Dutra, que dirigia a carreta carregada com couro. Ferido, ele precisava ser retirado rapidamente porque as chamas avançavam pela parte traseira do veículo. Um colega do motorista, que dirigia outro caminhão, também tentava socorrê-lo.
Com um tecido grosso improvisado para transportar a vítima, Daniel e Marcelo arrastaram Márcio para longe da carreta. Segundo Daniel, os veículos ainda explodiam e não havia tempo para esperar a chegada das equipes de emergência.
“Não dava tempo de fazer quase nada, porque tinha que tirar ele dali”, relatou. Depois de afastar o caminhoneiro, Daniel ainda tentou retornar para procurar outras vítimas. Colocou a camiseta sobre o rosto para se proteger da fumaça, mas o calor intenso e o risco de novas explosões impediram a aproximação.
A carreta conduzida por Márcio Dutra saiu da pista e atingiu a carreta-tanque carregada com combustível, provocando a explosão. Segundo Daniel, Márcio conseguiu sobreviver porque as chamas começaram a atingir o veículo pela parte traseira, dando tempo para que ele fosse retirado.
Primeiros socorros
Fora da área mais próxima das chamas, Daniel e Marcelo começaram os primeiros socorros. O caminhoneiro apresentava forte hemorragia na região do ombro e tinha uma das pernas fraturada. Marcelo carregava no carro um kit de APH (Atendimento Pré-Hospitalar), e Daniel orientou o uso dos materiais para conter o sangramento.
O fogo avançou pela vegetação e obrigou o grupo a retirar Márcio novamente do local. Sem sinal de telefone para pedir socorro, eles decidiram colocá-lo em uma caminhonete e seguir em direção a Bandeirantes. No caminho, encontraram uma equipe de emergência que já havia sido acionada. Daniel estima que toda a ação inicial, desde a aproximação até a retirada do caminhoneiro, tenha levado cerca de 15 minutos.
Daniel conta que a experiência profissional foi decisiva. Além dos anos de atuação na Polícia Rodoviária de Trânsito, ele fez curso de atendimento pré-hospitalar voltado a situações de emergência.
Márcio sobreviveu e foi levado para Campo Grande, onde passou por cirurgia na perna e segue em recuperação. Depois do acidente, Daniel comprou roupas para o caminhoneiro, que perdeu os pertences na colisão, e pretende reencontrá-lo no hospital nesta quarta-feira. “O mais importante é a vida”, resumiu.
Acidente deixou cinco mortos
A colisão envolveu cerca de cinco veículos, entre duas carretas e três carros de passeio, e deixou cinco mortos e seis feridos.
Quatro vítimas que morreram eram da mesma família: José Doná, Natalina Perbelini Doná, Sérgio Doná e Ana Maria Doná Marques. Eles saíram de Assis, no interior de São Paulo, passavam por Mato Grosso do Sul com destino a Rondônia, onde participariam de um casamento.
A quinta vítima foi Valderlânio Daniel Santos, de 49 anos, motorista do Chevrolet Onix. Segundo a Polícia Civil, ele é apontado preliminarmente como o condutor que teria iniciado uma ultrapassagem antes da sequência de colisões.
Entre os sobreviventes está Márcio Dutra, socorrido por Daniel e outros motoristas. Cinco feridos foram transferidos para hospitais de Campo Grande.
Para o sargento, a dimensão do acidente ficou marcada mesmo após anos trabalhando com ocorrências de trânsito. Ao tentar retornar à área das colisões em busca de outras vítimas, ele precisou recuar diante das chamas. “O fogo estava muito forte, coloquei a camisa no rosto, mas não dava. Minha pele já cheirava queimado”, relatou.
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