Por Contra-Almirante Emerson Augusto Serafim* em 11 de Junho de 2026
Anderson Gallo/Arquivo Diário Corumbaense

A história mostra que é questão de sobrevivência para os Estados proteger suas riquezas e interesses nas águas sob seu domínio, sejam recursos naturais e infraestruturas críticas que neles repousam, seja garantindo a segurança do tráfego marítimo essencial para o desenvolvimento. Vem do mar o petróleo, motor de vasto ecossistema produtivo, assim como boa parte do pescado que alimenta os brasileiros. Pelos mares, cabos submarinos nos conectam digitalmente ao mundo, e por eles fluem mais de 95% de nosso comércio, abarcando toda sorte de insumos e mercadorias, como os fertilizantes que propiciam ao agronegócio produzir as riquezas do campo, as quais também navegam até seu destino.
A defesa de nossos interesses nos oceanos é o propósito da Marinha do Brasil, presente nos momentos cruciais da nossa história, de Cabral às tarefas de defesa da soberania e salvaguarda dos interesses brasileiros no mar que nos pertence. Esta tarefa exige a obtenção de meios adequados para o combate, a formação continuada de pessoal especializado, bem como o desenvolvimento e treinamento de técnicas e procedimentos, capacitando a Força Naval para vigiar, lutar e vencer na superfície dos mares, nos ares e nas profundezas.
Esta vocação vai muito além dos litorais. Nossa formação territorial e desenvolvimento nacionais passou pelas hidrovias, rios e lagos que há séculos integram milhões de cidadãos, e que contribuem para desbravar e povoar os rincões mais distantes do Brasil.
Neste contexto, no século XIX, as águas dos Rios Paraguai e Paraná eram o caminho natural de acesso às riquezas do Mato Grosso, e sua livre navegação era questão de segurança nacional, tendo sido um dos aspectos fundamentais dentre os antecedentes do maior conflito da América do Sul: A Guerra da Tríplice Aliança, que envolveu, de um lado, Brasil, Argentina e Uruguai e, do outro, o Paraguai.
Inevitável que a rota estratégica fosse palco de encarnecidos combates e, dentre os muitos ocorridos, a Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, foi a de maior impacto para o conflito, quando a Força Naval Brasileira, ao neutralizar a Esquadra adversária e negar o uso da hidrovia para apoio logístico, delineou a vitória final. Não por acaso, este feito é lembrado como o dia da Marinha, a Data Magna da instituição, quando exaltamos o exemplo de coragem e supremo sacrifício pela Pátria deixado por Barroso, Greenhalgh, Marcílio Dias e tantos Marinheiros anônimos.
Hoje, a paz e a cooperação reinam na hidrovia Paraguai-Paraná, que une as cinco nações por ela banhadas no objetivo de trazer progresso sustentável à região, permitindo o florescer das atividades econômicas e a preservação dos biomas lindeiros, trazendo bem-estar para a população ribeirinha. Ainda assim, a prontidão e a presença da Marinha na região, que em 2027 completa 200 anos, se fazem necessárias para garantia da boa ordem na bacia do Paraguai e demais rios e lagos da Área de Jurisdição, em coordenação sinérgica com as Forças coirmãs, agências governamentais e Órgãos de Segurança Pública.
Seja nas ações de Defesa Naval, em prol da soberania na fronteira oeste, na navegação segura e proteção da vida humana nos rios e lagos, no apoio a políticas públicas, como promoção da saúde, combate a incêndios florestais e calamidades, ou na Diplomacia Naval, a Marinha do Brasil, através do 6º Distrito Naval, estará pronta a contribuir, no que nos couber e tanto quanto pudermos, com o desenvolvimento dos Estados do Mato Grosso e Mato grosso do Sul, honrando o sinal içado pelo Almirante Barroso, Comandante da Esquadra brasileira, antes da batalha que relembramos: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever!”.
*Contra-Almirante Emerson Augusto Serafim é comandante do 6º Distrito Naval, sediado em Ladário/MS.