Ângela Kempfer - Campo Grande News em 27 de Maio de 2026
Antes de ficar seis anos foragido após ser solto por uma decisão judicial suspeita, o condenado por tráfico, sequestro de avião e envolvimento em crimes do PCC (Primeiro Comando da Capital), já havia sido beneficiado em Mato Grosso do Sul por outro “erro” do Judiciário local, que também abriu a porta do regime fechado estadual para um dos bandidos mais perigosos do País, segundo as forças de segurança.
Em 2010, a justificativa formal foi uma falha no cálculo da pena, depois corrigida por outro juiz. Em 2020, o caso entrou no campo da suspeita de venda de decisão judicial. Mas o efeito prático foi parecido: em dois momentos diferentes, decisões tomadas em Mato Grosso do Sul aliviaram a situação prisional de um homem hoje condenado a mais de 120 anos de prisão.
Primeiro caso
A palavra erro aparece como explicação formal para o episódio mais antigo. Há 16 anos, ele já acumulava quatro condenações, que somavam 66 anos e 9 meses de prisão, por tráfico de drogas, associação ao tráfico, roubo, formação de quadrilha e sequestro de aeronave. Mesmo assim, uma decisão de outubro de 2010 permitiu que ele deixasse o Instituto Penal de Campo Grande e fosse para o complexo penitenciário da Gameleira, no semiaberto, com as regalias de só voltar para dormir.
A correção veio só depois. Em 29 de novembro daquele ano, o juiz substituto da Primeira Vara de Execução Penal, Albino Coimbra Neto, mandou Palermo voltar ao regime fechado. Ele descobriu que uma nova condenação não havia sido considerada quando a progressão de regime foi concedida pelo magistrado anterior.
A conta que tirou Palermo do fechado estava incompleta. Segundo o despacho citado pela reportagem do Campo Grande News em 2010, ele havia cumprido 21 anos e 11 dias de prisão, já com remições. Mas, com a condenação que havia ficado fora do cálculo, ainda restavam 45 anos, 8 meses e 19 dias de pena a cumprir. Para esse volume de pena, a legislação exigia regime fechado.
O erro ocorreu mesmo com Palermo já tratado como criminoso de alta periculosidade, condenado por um dos crimes mais cinematográficos do país: o sequestro de um Boeing da Vasp em 2000, quando uma quadrilha roubou milhões em malotes bancários.
Dois anos antes, o histórico de Palermo no sistema penitenciário de Mato Grosso do Sul foi incrementado por outro episódio sensível: a rebelião ocorrida no IPCG (Instituto Penal de Campo Grande), na véspera do Natal de 2008. O motim provocou a transferência de 33 presos e expôs à época, a capacidade de articulação do PCC, mesmo com integrantes espalhados por unidades diferentes.
A apuração daquele ano apontava que a rebelião tinha como pano de fundo uma rixa iniciada em 2006, quando presos do IPCG se recusaram a aderir ao motim do Dia das Mães, coordenado pelo PCC e considerado um dos mais violentos da história penitenciária de Mato Grosso do Sul. Desde então, segundo a reportagem, internos do instituto passaram a ser “jurados” por integrantes da facção.
Segundo caso
Doze anos depois, a história ganhou um capítulo ainda mais grave. Em 2020, Palermo voltou a sair da prisão, desta vez por decisão do desembargador Divoncir Schreiner Maran, do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). O magistrado depois foi acusado de vender habeas corpus e acabou aposentado compulsoriamente. Palermo passou a ser considerado foragido desde então.
A prisão desta semana recolocou Palermo no centro da cena. Segundo a Polícia Civil, a investigação que chegou até ele começou em outubro do ano passado, depois que teria ordenado o sequestro da própria filha, de 25 anos, em Campo Grande, por causa de uma disputa envolvendo R$ 50 mil, dinheiro que teria origem no narcotráfico. A jovem foi levada para um cativeiro nas Moreninhas e, após ser libertada, ajudou a polícia a chegar aos sequestradores.
Divulgação/Polícia Federal

Chegada da aeronave da Polícia Federal no aeroporto de Campo Grande
O histórico dele passa por tráfico internacional, uso de aviões e caminhões para transporte de drogas, condenação pelo sequestro da aeronave da Vasp e fuga prolongada após uma decisão judicial hoje cercada por suspeitas.
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